criança

Meu filho é “normal”?

Se você é pai ou mãe, provavelmente, em algum momento da criação do seu filho você fará essa pergunta: meu filho é normal? Muitas vezes essa dúvida surge quando comparamos o desenvolvimento, comportamento ou fala dos nossos pequenos com a dos coleguinhas ou com a nossa própria trajetória.  Mas o que é normal? Como saber se meu filho só é diferente ou se ele precisa de uma ajuda especializada?

A princípio, precisamos entender que a palavra normal tem como significado a norma, as regras  que constituem parâmetros, em outras palavras, alguém definiu alguns limites e quando nos mantemos dentro desses mesmos padrões somos considerados normais. O importante é explicitarmos que os padrões são construídos socialmente e por isso, eles são frutos da visão científica, política e até mesmo religiosa da época. 

Vamos para um exemplo?

Na Grécia Antiga ou, até mesmo em tribos indígenas sul-americanas, os bebês que nasciam com alguma deficiência física eram atirados de penhascos, jogados nos rios ou abandonados nas florestas para morrerem. Absurdo, não é?! Mas naquela época acreditava-se que as crianças que nasciam assim trariam um enorme prejuízo para o grupo ou que eram amaldiçoadas pelos deuses. Com o passar do tempo, nós aprendemos que se trata apenas de deficiências ou doenças, se você preferir, e que tais pessoas possuem os mesmos direitos que todas as outras.

Voltemos à nossa pergunta original, seu filho é normal? Bom, quando falamos de deficiências físicas, na maioria das vezes, elas são facilmente observadas, mas geralmente quem se faz esse tipo de pergunta está preocupado com questões de ordem cognitiva, emocional ou da linguagem e o nosso foco será esse.

As desordens emocionais e transtornos psiquiátricos

Você já ouviu falar que hoje qualquer “birra” ou tristeza é doença? Ou já ouviu dizer que os transtornos psiquiátricos são frescura? Tais afirmações são duas faces da mesma moeda: de um lado existe um grupo que tem a necessidade de diagnosticar todos os processos humanos como tristeza, raiva, etc. Do outro lado, há um grupo que não admite a existência de doenças que não sejam da ordem física. 

Ambos os processos ocorrem por falta de informação e hoje nós detalharemos essa discussão.

Afinal o que é uma doença?

Segundo o dicionário Priberam, a definição de doença é “alteração biológica do estado de saúde de um ser (homem, animal etc.), manifestada por um conjunto de sintomas perceptíveis ou não; enfermidade, mal, moléstia.” E o que seria uma deficiência? “insuficiência ou ausência de funcionamento de um órgão” ou para a psiquiatria “insuficiência de uma função psíquica ou intelectual”.

As definições acima são razoavelmente fáceis de compreender, mas elas não parecem ser tão claras quando se tratam das desordens emocionais, por exemplo. Para contrastar, gostaríamos de trazer a definição de saúde “estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e seu ambiente”, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar.”

Por meio dessas dessas três definições – doença, deficiência e saúde- criaremos um instrumental inicial para fundamentar as nossas dúvidas quanto à “normalidade”

  1. Com quem estou comparando meu filho? Cada criança tem seu próprio ritmo. Alguns bebês dizem suas primeiras palavras com 8 meses, outros com um ano e outros com dois. Muitas vezes, os pais esperam que a criança fale logo, mas a casa é um silêncio total. Como o bebezinho falará se ninguém conversa com ele ou ele não escuta a comunicação entre seus pais?
  2. Considere outros tipos de inteligência: Nem todas as crianças desenvolveram tão bem suas habilidades socioemocionais, por exemplo, e isso não significa que seu pequeno tenha depressão ou outro transtorno de humor. Algumas vezes, em família ou na escola, nós supervalorizamos alguns tipos específicos de inteligência deixando as demais “de lado”. É como na academia, muitos alunos só trabalham os membros superiores e, obviamente, não obterão o mesmo resultado nos membros inferiores, o mesmo acontece com as crianças. Nossa sociedade, infelizmente, supervaloriza os trabalhos acadêmicos, memória ou habilidades lógico-matemáticas e dá menos crédito aos trabalhos artísticos ou às habilidades interpessoais. Nenhuma criança será boa em tudo. Precisamos ser razoáveis, mas isso não significa ausência de orientação pedagógica, caso seu filho tenha dificuldades em determinadas disciplinas. Bom senso é tudo!
  3. Meu filho está sendo prejudicado por causa de determinada característica? Aqui está um ponto importante, nós ,que não somos médicos, temos a tendência de transformar características em sintomas e sintomas em características. No caso da maioria das doenças, somente com exames ou testes clínicos é que podemos determinar se há ou não uma disfunção psíquica, por exemplo.

O negacionismo de alguns pais prejudica o próprio filho

Historicamente, o diferente é segregado. Foucault, no primeiro capítulo da “A história da loucura” nos conta que em boa parte do mundo e durante quase toda Antiguidade, Idade Média e Modernidade os leprosos, doentes mentais, deficientes físicos ou até mesmo pacientes com doenças venéreas eram “entulhados” em instituições hospitalares e/ou religiosas e lá viviam à margem da sociedade.

A luta antimanicomial é recente. No Brasil, há um caso emblemático,  conhecido como o Holocausto de Barbacena. Lá as pessoas eram internadas compulsoriamente, entregues ao Hospital Colônia e eram submetidas ao frio, fome, torturas e até chegarem a óbito.

Aliado a essas instituições que residem no imaginário e na memória da humanidade, temos os estereótipos dos pacientes psiquiátricos e dos profissionais da saúde mental que parecem viver em um ambiente delirante, quase como no conto de Machado de Assis,

O Alienista

Nesse conto, o jovem Simão Bacamarte que tem um interesse legítimo nas doenças psiquiátricas, porém-alerta de SPOILER- acaba internando quase todos da cidade em sua casa de repouso.

Olhando para todo esse contexto, é natural entender o medo e a resistência dos pais em admitirem que seus filhos tenham de fato alguma desordem emocional e/ou cognitiva. Afinal de contas, qual pai ou mãe gostaria de ver seu filho sofrendo preconceito? Já que o mundo não respeita a (neuro) diversidade. Para combater o preconceito é imprescindível informação sobre o assunto.

Quando procurar ajuda médica?

Está com dúvida? Procure um médico! Uma dica: tente encontrar um profissional que você confie. Existem muitas abordagens e opiniões diferentes em todas as áreas do conhecimento e com a avalanche de informações da internet é comum que não saibamos em quem acreditar. Quando confiamos em um profissional, nós podemos apresentar nossas dúvidas, e ficaremos mais tranquilos com as intervenções por ele sugeridas. Ninguém é especialista em tudo e precisamos reconhecer os nossos limites, mas o limite não nos trava, ele abre caminho para que o outro, seja ele o médico, professor, advogado, nos ajude a seguir adiante.

Os perigos do autodiagnóstico 

Ah, o doutor Google! A internet é território de ninguém. Essa afirmação pressupõe que qualquer pessoa pode ter um site ou blog e postar qualquer conteúdo equivocado por maldade ou por falta de conhecimento.

Cuidado com o “Dr. Google”!

As páginas de busca como o Google, Yahoo, entre outras, tendem a apresentar as informações das páginas mais lidas ou dos seus anunciantes, entretanto nem sempre tais informações são confiáveis e ainda que sejam, elas não substituem o diagnóstico médico.

Fechar um diagnóstico psiquiátrico não é uma tarefa fácil e isso ocorre porque há mais de 300 transtornos mentais no DSM-5 (O Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5.ª edição ou DSM-5 feito pela Associação Americana de Psiquiatria) cada um com uma “gravidade” específica, podendo ou não estar associado a outro transtorno.

Grande parte desses diagnósticos é clínico, ou seja, não existe um exame específico para detectá-lo e por isso, a conclusão clínica envolve outros profissionais da área da saúde como neurologistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e algumas vezes psicopedagogos. 

A reunião desta equipe de profissionais cria cria algumas hipóteses diagnósticas e até mesmo diagnósticos provisórios para que tenha tempo de estudar o caso, eliminar outras possibilidades e assim fechar um diagnóstico definitivo. Às vezes, apesar dessa junção de profissionais, é possível que haja um diagnóstico equivocado, logo, lhe faço um questionamento – pensando em todo esse processo, considerando as variáveis – quais as chances de nos diagnosticarmos erroneamente?  As possibilidades são grandes e para determinados transtornos é preciso agilidade para que o prejuízo seja menor.

Um diagnóstico errado pode gerar grandes danos, pois haverá um erro na linha de tratamento (tipos de terapias mais eficazes, medicações, abordagem pedagógica, etc), sobretudo no que diz respeito aos medicamentos e ausência de práticas terapêuticas adequadas. 

Os riscos de não seguir o tratamento indicado

Todo diagnóstico pressupõe um tratamento, embora não exista cura para determinadas doenças. Mesmo nos casos mais severos, sempre há cuidados paliativos, garantindo a qualidade de vida e conforto ao paciente. Lastimavelmente, alguns pais optam por abandonar o tratamento. Dentre os motivos mais frequentes para essa prática estão: 

  • Alto custo do tratamento: O custo de vida em nosso país aumenta a cada ano e na saúde não é diferente. Saúde em qualquer lugar do mundo custa caro. No Brasil, temos três opções para “ajudar” na questão financeira. A primeira delas é o convênio médico cuja assistência  cobre os principais exames, consultas com especialistas e até mesmo as psicoterapias. Algumas operadoras reembolsam o valor das consultas particulares ou auxiliam no abatimento do imposto de renda. A segunda opção, é o Sistema Público de Saúde que conta com hospitais, CAPS Infantil e Adulto (Centro de Atendimentos Psicossocial) . E por fim, há as Organizações Não Governamentais (ONGs) e clínicas/hospitais universitários que atendem gratuitamente o público em geral.
  • Desgaste emocional: Tratamentos contínuos cansam. Sabemos que o início é difícil e, dependendo do transtorno, leva-se tempo até encontrar um resultado mais consistente. É nessa hora que o desânimo vem atrelado a outros fatores (dificuldades financeiras, familiares, no ambiente de trabalho, etc). Por exemplo, no autismo, comumente, os pais das crianças são inseridos na psicoterapia, cujo objetivo é respaldá-los emocionalmente para que sejam um alicerce equilibrado aos filhos.
  • Dificuldade na adaptação dos medicamentos: Todos os remédios são substâncias estranhas ao nosso corpo, como tais, levam tempo para se adaptarem. Toda medicação é uma aposta realizada pelo médico, podendo ou não dar certo. O uso contínuo e correto do medicamento revelará se ele é adequado ou não ao paciente. Muitas vezes é na prática que descobrimos se temos uma alergia à determinada substância, por exemplo. E ainda que a medicação seja acertada logo de primeira, será preciso ajustar a dosagem e o horário. Esse percurso não se realiza em poucos dias, normalmente, demora cerca de 6 meses. A adaptação biológica à medicação leva em torno de 10-15 dias, no mínimo. Portanto, os pais devem ter paciência, observar a criança e conversar claramente com o médico, para que o resultado do tratamento seja exitoso.

Como os pais podem contribuir com o tratamento?

Paciência, observação e conversas francas com o médico são as atitudes que os pacientes e famílias devem cultivar.

Meu filho é “normal”? Não sabemos, mas quem é “normal”? Seria justo rotularmos as pessoas dessa forma? Quem não é “normal”, é “anormal”? A grande diferença é que a limitação de um, não é a do outro.

Se algo impede seu filho de voar mais alto, busque ajuda! Auxilie-o a ser o melhor dentro de suas possibilidades, mas não para compará-lo e sim para satisfação pessoal dele. Independência e qualidade de vida são fundamentais, busque isso! Lembre-se de respeitar as fases, limites e características do desenvolvimento também. 

Até a próxima…

<strong>Victória Brites Fajardo</strong>
Victória Brites Fajardo

Victória é mestra em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Atualmente, é graduanda em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo e estudante de psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae e CEP. Ela trabalha como orientadora pedagógica na empresa Busca Prof Brasil. É casada, petmamis de três cães e uma tartaruga e moradora da Zona norte da capital.  A leitura e as reuniões com amigos e familiares são seus passatempos preferidos.

Referências

American Psychiatric Association. Referência rápida aos critérios diagnósticos do DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Arbex, Daniela. O Holocausto Brasileiro. São Paulo: Intrínseca, 2019.

Assis, Machado de. O Alienista. Domínio Público- Fundação Biblioteca Nacional Departamento Nacional do Livro 

DEFICIENCIA, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/chavedeficiencia [consultado em 20/02/2022].

DOENÇA, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/chavedoença [consultado em 20/02/2022].

Figueira, Emílio.O que é educação inclusiva? São Paulo: Brasiliense, 2011.

Foucault, Michel. História da Loucura- São Paulo: Perspectiva, 2012.

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